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terça-feira, 29 de março de 2011

Madrugada

Aqui está escuro. Quer dizer, não tão escuro assim, pois consigo definir objetos. Mas não há uma iluminação artificial sequer, tudo é iluminado pela pouca luz da lua que entra pela vidraçaria das janelas.
Estou sozinho. Acho que já são 2:20h da madrugada. Na rua não há nenhum barulho consistente. Apenas ouço o maquinário da fábrica trabalhando. Consigo ouvir também gatos e cachorros perambulando e se comunicando pelas ruas. Tudo parece estranho por essas horas. A impressão que fica é a de que o planeta está girando devagar. Parece que a Terra rotaciona na cadência do tic-tac do relógio da cozinha.
Acendo uma das lâmpadas, coloco uma música calma para tocar, sento-me no sofá da sala, cubro-me com um lençol e olho fixamente pela janela defronte a mim. Olho tão fixamente a ponto de não ver nada. Fico absorto pensando em muitas coisas, todas sem nexo, sem fluência. Pensamentos mudam tão rápido que nem dá para me vislumbrar sentado e pensando. Na verdade eu penso na vida no mesmo momento em que esqueço dela. Dou-me conta de mim, acho estranho e mesmo assim ainda fico muitos minutos no mesmo lugar, apenas pensando, estático. A música continua tocando. A vida volta aos poucos ao seu lugar. Sinto um frio na barriga, então arrumo os cabelos, levanto, apago a luz, entro no quarto, tranco a porta, ligo uma pequena luminária, ligo o ventilador, deito na cama, cubro-me com o lençol e continuo pensando. Penso, penso, conjecturo milhões de cenas, crio histórias involuntariamente e, sem que eu perceba, sou dominado pelo sono.

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